sexta-feira, 1 de maio de 2009

Caleidoscópio

Por: Bruno e Thaís (ambos Carvalho).

Chovia e chovia. Mesmo no menor espaço, na menor viela, entre as duas menores casas da cidade, a chuva era torrencial. Torrencial e barulhenta... Passava-se uma, duas, três horas. A chuva não permitia. Da janela embargada pouca coisa se via. O barulho era mais real do que qualquer coisa que viesse de dentro e de fora de casa.Porque, mesmo estando em todo lugar, aquele barulho insistente de chuva batendo nos telhados, não pertencia a nenhum, vinha de outro lugar, e eu começava a desconfiar que na verdade, grande parte daquele temporal não caía das nuvens, mas encontrava-se revolto, em meu coração, nas nuvens que o encobriam e não se determinavam a se dissipar. Enquanto isso eu olhava a água escorrer pela vidraça, olhava a vida ir escorrendo.Imaginando ser incrível que com a mesma rapidez que se cessa a queda dessas gotas cortantes, uma pequena coisa poderia fazer tudo isso evaporar. E o que veria? Estou me adaptando a visão de gotas fortes e aleatórias implorando para se adentrar em minha casa. Pela janela. Ah, como seria bom poder defenestrar também algo tão parecido: Essa sensação.Jogar tudo que aperta dentro do peito pela janela e olhar satisfeito os pedaços na calçada, mas do térreo os sentimentos ruins não iam morrer, só ficar machucados e com mais raiva, mais força. A rua passa, a vida passa, as pessoas em seus guarda-chuvas parecidos, passam. Pra que andar tanto, pra onde, porque? E ninguém olha pra janela, ninguém vê o temporal dentro de minha humilde casa, só o que, insistente, cai lá fora.Eles que ainda correm, procurando fuga. Insistem em não querer olhar para a janela. E se a janela quebra? Só nesse momento existe necessidade de decisão. Porque esconder que a janela está assim... é simples. Correr nos cansa mentalmente, correr faz esquecer, camufla a existência de gostas que arrebatam a janela. Correr é perigoso. Vidro quebra, correr cai. O mais perigoso ainda é observar a janela, olhar fixo e não vê mais nada, porque o egoísmo fala mais alto e, quando a chuva cai forte demais e dói, nada mais importa, ela pretende mesmo é desabar.Desabar. Desabar é poético, há poesia em uma janela quebrada? E em um coração quebrado? Tudo gira, e girar é poético, a mente gira com as pessoas que correm, (pra onde?), com a chuva que cai lá fora e aqui dentro (pra quê), com a janela que quebra (por quê?) e o perigo que torna tudo deliciosamente louco e arrebatador. Queria mesmo era sol, muitos amigos, uma cerveja gelada e uma água de coco. Mas só chove, só chove... E temos que tirar proveito disso. Porque, se não estamos só, se não existe silêncio, ninguém se estuda, ninguém aprende consigo mesmo. As pessoas temem a procurar por sábios, intelectuais, os excêntricos a fim de que lhes digam algo confortante, algo que seja bom uma vez ou outra. E, assim, se esquecem. Esquecem que somos a mistura dos sábios, intelectuais, excêntricos e que não temos limites. Escada é uma porra que inventaram não sei para quê. Experiência... Não é porque sabemos que um dia vamos estar no primeiro degrau, n'outro num topo, que não vamos subir e descer escadas (até porque é divertido). Precisamos presenciar a sensação de subir e descer, tombar e cair... Mesmo que mortalmente.É fazer dessa vertigem, inspiração; fazer da queda, um drama; fazer da vida, arte. Arte viva, arte de moleque, arte em casa, na rua, no bar, na escada de incêndio. Porque chuva é a arte de Deus, viver é a arte dos homens. É preciso estar em cada momento aqui, seja subindo, seja descendo. A escada sozinha nada é, nada diz, depende de onde voce está e de onde espera chegar, isso dá sentido as escadas, à vida, as janelas quebradas e as pessoas que correm lá fora. Se somos produto de todos e se somos, cada um, nós e os outros, ao mesmo tempo, então há um mundo maior aqui, talvez só esteja chovendo no interior, mas haja um litoral onde os amigos, o sol, e a cerveja gelada esperam pacientemente que você consiga sair da penumbra e se mostre, se jogue, suba, salte, dance...Afinal, nós somos quem escolhemos onde vamos; se vamos de avião, trem, a pé... assim como escolhemos se vamos realmente ficar a observar janelas ou se a janela, curiosamente, irá nos observar tomando uma cerveja gelada, debaixo d'um sol, festejando. A vida é uma festa! Aqueles que não riem nem tiram proveito disso são os caretas; eles se autodenominam intrusos, penetras. Há quem queira observar janelas mesmo assim, ouvir sobre o que as pessoas conversam e, mentalmente, estarem bem longe dali. Só não sabemos qual meio utilizou ... Se trem, carroça, etc. A vida é intrigante... Ela torna tudo variavelmente constante. Mas os doces da festa não estão separados em beijinhos, brigadeiros, empanados; cada um é completamente desigual. Se fomos repararmos... Suas formas são totalmente diferentes! Mas isso quase não se percebe, afinal, não se conhece nenhuma delas inteiramente para que essa se torne unicamente ela.E nunca deixar nada de lado, aproveitar tudo. Beliscar todos os quitutes da festa que é a vida, já que esquecemos a bolsa e dessa festa a gente não leva nada, nem que queira. A vida é assim, a chuva já vai passar. Não adianta passar a vida toda sentado observando se a próxima gota vai cair mais forte ou não, até mesmo porque a chuva vem do lado de fora e, a festa começa independente de convite ou não. Ah, afinal de contas: A festa é sua.

[Agradecendo a Bru pela participação direta do texto e, indireta, por servir de espelho humano ( que, segundo dicionário: "Tudo o que reflete ou reproduz um sentimento";" Ensinamento, exemplo, modelo").]
Te amo, protegido. <3

Mais dele: http://www.asolidaoeacidade.blogspot.com/

Um comentário:

Raisa Moreno disse...

Muito boa a metáfora da chuva! Sério mesmo! Mas engraçado que eu penso diferente em relação a ela... Pra mim, invés de tristeza, dá conforto.
Adorei a parte da escada e dos beijinhos, brigadeiros e etcétera (é assim que escreve? Rs).Fico sem palavras!!