Cecília bate a perna impacientemente, olhando o relógio - nada de seu chefe chegar. Precisa ir embora. Quer ir embora. Pega o celular, vai ligar. Mas não liga. Desliga. Isso, Cecília desliga, tira a sapatilha apertada de um dia cheio, arranca a prisilha que puxava todos fios de cabelo desde sua testa à um conjunto só, se joga na cadeira, se olha no espelho e vai ao banheiro retirar a maquiagem. Lava, lava e não cansa de lavar. Cecília sente a água gelada como se fizesse muito tempo que não sentisse esse prazer. Deixa os brincos pesados sobre a mesa, e sai do prédio empresarial descalça, livre e rebelde. Ela nunca esteve tão linda, e realmente se sente assim.
Oferece seu aparelho celular à um mendigo, mas ele recusa.
Cecílica corre, nessa noite fria, mas distante de glacial.
Está apressada, pois tem pressa de estar livre; tem pressa de respirar um bom ar, de se jogar, cair no mar, boiar. Cecília tem pressa do céu, e o céu pressa de Cecília. E, deitada nessa água, a Lua é linda, as estrelas são lindas, ela é linda.
Esticada, feliz, a boiar, Cecília medita, respira, nasce, vive e é acolhida pelo mar...Qualquer helicóptero só veria um traço, cada vez mais longe; cada vez menor, cada vez mais lindo naquela circunstância.
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