terça-feira, 14 de setembro de 2010

Souvenir

Joaninha um dia perguntou a Roberval:
- Que que te incomoda em mim?
"Esse seu abrupto jeito de sempre interrogar as coisas", ele disse.
E ela pensou "mas minhas palavras saíram doces.", "Será que ele nota o que realmente me incomoda?" e lhe respondeu, perguntando:
- E por que tu nunca me explica direito?
- Não vai entender nada mesmo.- Disse ele, sem olhar pra ela, pois uma parte da grama ainda estava grande.
Joaninha respirou fundo, pegou aquela enxada enferrujada, devagar deu dois passos retinhos à frente.
Roberval foi acompanhando sua sombra, perplexo, virou: "Ficou louca?"
- Se aquiete, tem um rato encostado no teu sapato.
Roberval olhou, mas não encontrou o rato, convencido de que ela estava louca, tirou a enxada de sua mão com sua força bruta, carregou ela no colo e deixou-a deita no sofá rasgado.
Joaninha sentiu aquele vento no seu rosto como água gelada no sertão e ficou muda o caminho inteiro, com um sorriso doentio no rosto, sentido-se segura com aqueles braços que, sabia ela, não lhe fariam escorregar.
Roberval passou pela mesa umas cinco vezes, mas pode ser que Joaninha não tenha acompanhado seus passos direito. Da porta da casa para o corredor e do corredor para a porta. Até que, enfim, pensou se ela não poderia ajudar, mesmo no estado em que estava, e resmungou: - Não sei o que faço com você...
Joaninha: - Oxe, e por que haveria de fazer alguma coisa comigo?
Roberval olhou pra ela com um certo medo: - Porque você só pode estar ficando louca.
Não entendo direito em que sentido ele quis dizer isso, ela sentiu seu olho umedecer incontrolavelmente, tentou manter sua face igual como estava antes, mas era tarde, ele já tinha notado sua expressão de choro.
Sem que ele interrompesse, levantou-se cansada do sofá, foi todo o caminho até o corredor olhando pra ele. Nada ele fez a não ser sentar na cadeira de madeira que estava bem atrás.
No banheiro, lavou o rostou. No quarto, abriu todas as gavetas primeiro e pegou todas as suas poucas roupas e colocou numa sacola. O porta-retrato, o único existir romântico daquela casa, ficou, e agora com a marca de dois dedos seus.
Saiu pela janela, que era grande e a altura para o chão era pequena. Andou sem pressa por todo o campo, chutou aquele rato fedorento na barriga e subiu no galho da árvore, com frio, era quase noite. Dava para assistir a novela pela casa da vizinha, e isso foi tudo que fez no fim daquele dia.
De manhã cedinho, antes que os galos acordassem, desceu toda se contorcendo depois de ter dormido em meio às madeiras, seguiu linha reta em direção à casa, abriu a porta, ele continuava na cadeira, acordado. Ela deixou sua sacola no chão e, embora não aguentasse ficar ali em pé, assim ficou. Até que ele, de modo quase previsível, levantou e lhe deu um abraço nunca dando antes. E ambos sentiram algo que nunca sentiram assim antes: Medo da vida.

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